Não resisti e voltei cá. Mitologia, não era? Eu tinha decidido não responder a isto. Basicamente, por não ser politicamente correcto. (Estou a brincar)
O homem moderno perdeu o contacto com a realidade transmitida pelo mito. Bem sei que há uma ou outra tentativa de criação de novos mitos, como a do Tolkien, mas estão condenadas ao fracasso. Os nossos mitos podem ter desaparecido. Mas, pior do que isso é que mesmo os que ainda existem, deixaram de desempenhar o seu papel - e isso é que é trágico!
A mente colectiva, a memória da espécie é ahistórica, incapaz de registar acontecimentos históricos. De resto, muito havia a dizer sobre esta nossa moderna mania da "seta do tempo", da ideia de tempo linear. Mas, já passa são quase sete e meia e não há tempo. Nem me apetece.

Os mitos são o meio de contacto com a mente colectiva. A ideia do mito como meras fábulas só existe na mente pervertida do homem moderno. Para o homem primitivo, pelo contrário, os mitos eram a realidade, senão mesmo a única realidade. Nós não conseguimos entender isso, actualmente. E não conseguimos comunicar com a mente colectiva. E se não o conseguimos fazer é porque certamente não existe, correcto?
Hum... que se há-de fazer? que se pode dizer? Nada!
Deixa-me só dar-te um pequeno exemplo retirado da minha experiência pessoal. Eu faço rituais. Bem, dizer isto assim é completamente absurdo. Quem é que não faz rituais?... Um ritual é uma acção formal que segue um padrão determinado que exprime, através de símbolos, um significado público ou partilhado.
Hum... bora lá à experiência pessoal. Eu estava com uns amigos num bar, um individuo aproximou-se de um deles e pediu-lhe lume. Ele disse que não tinha e o outro afastou-se. E eu fiquei horrorizada. Eu tinha deixado aquele idiota (o que disse que não tinha lume, tendo) participar num dos meus rituais. é claro que isso nunca mais voltou a acontecer. Sim, eu sou uma pessoa irascível, mas aqui a questão era um bocadinho mais complexa. Um pagão contemporâneo que viva aqui na Galécia e que se recuse a dar lume, podendo fazê-lo, qualquer que seja a circunstância em que lhe tenha sido pedido o lume, está a cometer um pecado grave. Porque se afasta dos seus ancestrais, para quem era impensável não dar lume àqueles que lho pediam.
Os mitos têm fundamentalmente essa vertente, dizem-nos como devemos agir, ensinam-nos a repetir o acto do herói primordial. Não é tanto no sentido dessa vertente didáctica, de agir bem. É agir no sentido correcto, mas num outro sentido. Agir em função de criar cada vez mais, no dia a dia, uma maior sintonia com a mente colectiva. É isso que importa.

Pois é, eu sou uma chata. Que se há-de fazer?