Quem entende perceber de Folclore chega a conclusão seguinte:
1º- Existe bastantes semelhanças em certos aspectos únicos entre as duas margens do Minho.
2º- Factores geográficos, sociais e politicos ajudaram a criar um fosso entre estas regiões.
Quanto ao 1º ponto:- Existem temas comuns (especialmente entre gaiteiros) entre as margens e até denominações comuns (Jota vs Góta) bem que estas não se refiram a modas semelhantes.
- A Nível coreográfico, salta á vista bailar-se muitas vezes com os braços no ar. Coisa que não acontece com frequência nas outras regiões de Portugal.
- O tipo de Gaita de Fole utilizada no Noroeste de Portugal é o mesmo do que na Galiza: A Gaita Galega. Tras-os-Montes (especialmente as terras de Miranda) usa o tipo Asturiense enquanto que o resto do país usa ainda outras.
- Uma das maiores especificidades desta região, e um dos seus maiores tesouros, são os coros femeninos polifónicos. Segundo o maior etnografo-musicologo que passou por Portugal (Michel Giacometti), é um raro típo de manifestação cultural que na Europa ocidental só encontra paralelo em certas regiões de Itália. Fica aqui um exemplo:
http://www.youtube.com/watch?v=wlG1dQ7fXaU.
Este aspecto típico do Minho e também de certas zonas da Galiza é o resultado do trabalho comunitário entre as mulheres. Nomeadamente o trabalho do Linho, lavar no rio e outros afazeres extritamente feminino. Lamentávelmente, apedar da sua beleza, é dos aspectos mais mal guardados e reproduzidos da nossa região. A vasta maioria dos grupos folclóricos não demonstram este aspecto. Isso em parte por ser quase impossível agrupar a nível amador, pessoas com disponibilidade e capacidade vocal para este tipo de grupo.
- No fundo, quando se fala em semelhanças, não podemos-nos limitar aos sons e melodias que nos saltam á vista pois estas são mantos superficiais que são facilmente moldados por modas temporais.
Acerca do 2º Ponto:Na idade média é óbvio que toda a zona Galaica e até toda a europa usava a Gaita de Fole como principal instrumento. As provsa mais evidentes são as inumeras reproduzões de Gaiteiros nas contruções religiosas da época.
A diferença entre o Noroeste de Portugal, a Galiza e Tras-os-montes reside em primeiro lugar em dados geográficos e demográficos. Assim, enquanto a densidade populacional do Noroeste Português cresceu enormemente, a Galiza e Tras-os-Montes ficaram, até bem recentemente, isolados no panorama comercial e social Europeu.
Enquanto que graças ao dinamismo comercial e indutrial de cidades como o Porto, Braga e Guimarães, que enviavam pessoas para o Brasil e produzia alimento e texteis para os 4 cantos do mundo, as outras 2 regiões estavam fechada em si, preservando mais aspectos originais. A troca de pessoas, ideias e influencias desta pequena região a Noroeste com tanta população, rápidamente alterou muitos aspectos mais primitivos do Folclore.
Acerca da Gaita de Fole, ela ainda é usada no Noroeste de Portugal mas de forma diferente. Hoje, quase exclusivamente parte de grupos de Bombos que participam á margem das festas (em cortejos) e não no centro da mesma.
De realçar que o crescimento económico do Noroeste de Portugal (que outrora foi francamente superior á da Galiza) permitiu que se adquirissem novos instrumentos. A Gaita era muito popular por ser un instrumento feito através de sistemas báscicos e disponíveis sem custos. Uma cana, uma pele de cabrito e estava feito. Por cá, instrumentos de cordas de qualidade superior e a inevitável concertina (harmónios antes delas) ajudaram a cortar com as Gaitas dos terreiros e a mudar completamente o folcore devido á escala rígida das concertinas diatónicas.
Outro aspecto muito importante que cavou um fosso enorme foi a acção do estado novo. Com a criação da FNAT e concursos como a "Aldeia mais Portuguesa de Portugal" onde se queria fazer crer que Portugl era todo semelhante e a vida simples dos camponeses era tudo virtuoso, cor e alegria, foi mutilado a verdadeira expressão popular, muitas vezes carregadas de melancolias e dor.
Reparem que é nessa altura que se criam os primeiros modelos de ranchos folclóricos que hoje, salvo exepções raríssimas, representam tudo menos a tradição. Os responsáveis dos grupos inventaram melodias, danças e trajes para se distinguirem uns dos outros pelo que a fiabilidade destas entidades é reduzida.
Se o Minho é hoje visto como a terra da alegria, Michel Giacometti que criou um arquivo audio e video enorme, garante que os cantos Minhotos originais eram bem mais lentos, calmos e arrasados pela vida dura do camponês que se vergava de sol a sol.
No fundo, para ver folcore hoje em dia é ver velhotes que que não andam nem nunca andaram nestas coisas dos ranchos. Se o fizeram então já estão contamidados.